Pistas de Oração
Como se dizia no 1º dia deste retiro,
estamos no rescaldo do Tempo da Criação, que terminou no dia de S. Francisco de
Assis, a 4 de Outubro. Mas é um tempo que se pode viver todo o ano, é mais um
estado de espírito que se traduz numa nova forma de olhar o mundo, louvando a
Deus por tudo o que Ele criou, maravilhando-nos com a beleza e harmonia da
criação e vivendo de forma fraterna, recebendo e espalhando a comunhão e a paz.
Acontecem milagres cada dia quando o
nosso olhar é transformado pelo olhar de Jesus. Mas nem sempre nos apercebemos
que a Sua intervenção é constante e decisiva, pode-se dizer mesmo, vital!
Hoje somos convidados a beber da fonte certa, aquela que nos
dá a água viva. Jesus veio para nos dizer qual é e onde está essa fonte: “«Se
alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz
a Escritura, hão de correr do seu coração rios de água viva.»(Jo 7,
37-38); tal como disse à Samaritana: “Se conhecesses o dom de Deus e
quem é que te diz ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias e Ele havia de dar-te
água viva” (Jo 4, 10).
- Já fizemos a experiência do dom de Deus? Este dom que nos
vem de nos deixarmos amar por Ele, pela presença do Seu Amor derramado no nosso
coração, através do Seu mesmo Espírito que nos é dado?
Jesus precisou de fazer esta experiência do amor do Pai
muitas vezes e por isso procurava o Pai na oração, na intimidade do Seu
coração.
Uma das experiências possivelmente mais marcantes do
reconhecimento da sua identidade como Filho de Deus, foi o momento do Seu
Baptismo no Jordão, por João Baptista. Nesse momento tão especial, o Espírito
desceu sobre Ele em forma de Pomba e a voz do Pai ouviu-se: «Este é o meu
Filho muito amado, no qual pus todo o meu encanto.» (Mt 3, 17). Como
terá sido edificante para Jesus ouvir isto, mesmo que já o soubesse. Certamente
sentiu-se fortalecido e enviado na sua missão pública de anunciar o Evangelho,
que começou logo depois do Seu Baptismo.
Precisamos de reconhecer a nossa identidade de filhos muito
amados de Deus, amados por um Amor verdadeiro e incondicional. Esse
reconhecimento dá-nos chão, dá-nos segurança, dá-nos a nossa verdadeira
identidade, dá-nos Vida.
- Onde me alicerço? Naquilo que alcancei, nos meus sucessos
ou poder, no que os outros dizem ou pensam de mim? Porque isso de um dia para o
outro pode mudar e aí perco a minha segurança.
Para estar segura da minha verdadeira identidade preciso do
Espírito Santo. É Ele que me faz reconhecer que sou filha de Deus e mais, que
me possibilita viver como tal. É Ele que me faz perceber que não sou escrava,
nem devedora, nem estranha ou outra coisa qualquer, mas que sou livre e sou
filha daquele que tudo criou e é Todo-Poderoso no Amor; que me faz crer que
nada nem ninguém me pode separar do Seu Amor, nem pode diminuir a minha dignidade,
aquilo que já me foi dado e que só não receberei se a isso renunciar. Eu, mais
ninguém!
Que cena bonita é ver uma mãe ou um pai olhar com ternura e
encanto para o seu filho pequeno! E que bonito é também poder olhar para mim
mesma e ver esse encanto de Deus por mim! Essa é a água viva que Jesus me quer
dar, que me transforma, me dá uma vida nova, que faz curar tantas feridas e dar
frutos de boa qualidade, como a água que saía do Templo, do livro do Profeta
Ezequiel. Uma água que não se esgota, que existiu desde sempre e é eterna.
Há águas paradas, inquinadas, que levam à morte dos seres
vivos que lá habitam e há águas cristalinas e vivas onde é bom mergulhar e nos
rejuvenescem!
- O
que procuramos realmente na vida? Em qual destas águas queremos mergulhar e o
que fazemos por isso?
Quando andamos inquietos, sem paz, quando dizemos mal,
invejamos ou julgamos os outros, quando não podemos perdoar, quando somos
egoístas e pensamos só no nosso prazer e bem-estar, quando não queremos ajudar
ou partilhar com os mais vulneráveis, devemos perguntar-nos em que fonte
andamos a beber. Os frutos que a nossa vida dá, dão-nos ideia de como estamos e
a cuidar da nossa terra, a ser regados, podados, fertilizados…
Na sua homilia em Paris, no passado dia 26 de Setembro, o
Papa Leão XIV dizia a este propósito: “…a água viva do Espírito Santo foi
derramada em abundância e continua a dar frutos na Igreja através de
missionários e testemunhas em todas as culturas e povos. Fecunda tudo o que se
deixa tocar e transformar por ela para dar o seu fruto, ou seja, a santidade
daqueles que adoram o verdadeiro Deus e servem os irmãos e as irmãs com
generosa caridade.”
Como hoje é dia de Nossa Senhora do Rosário, termino
agradecendo a Maria tanto que nos dá, o seu imenso amor e companhia de Mãe
atenta e generosa. Que nos ensine a acolher cada dia o Espírito de Deus, esse
Amor derramado em nós, para que também do nosso coração possam correr rios de água
viva para muitos.