Pistas de oração

“Tende entre vós os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus.” Os sentimentos que estão! Porque ainda pensamos que temos de ser, ou de fazer, ou de sentir… Que difícil! Que fasquias tão altas pomos em nós mesmos, e como isso depois se torna cansativo. Então agora, nesta altura do ano, como estamos cansados…

Os sentimentos que estão em Cristo Jesus: os sentimentos que podem estar em nós quando nos entregamos ao Senhor e deixamos que o seu amor nos inunde, nos preencha e nos torne mais leves.

“Tornando-se semelhante aos homens. Em Jesus, Deus fez-se humano.” Nasceu numa família normal para a sua época. Uma família que teve de fugir para o Egito, como tantas outras, que foi ao templo na devida altura apresentar o seu filho. Uma família que não se considerou acima das outras.

Jesus, na sua humanidade, foi crescendo, foi a casamentos, escolheu os seus amigos, inclusive chorou a morte de um deles. Jesus foi verdadeiramente humano.

Lembro-me de que se usa a expressão de que alguém é muito humano quando essa pessoa é justa e tem uma especial atenção, carinho e cuidado com aqueles com quem se cruza. Quem mais do que Jesus foi verdadeiramente humano? Jesus, que chamou o cego que os discípulos tentavam afastar porque importunava; Jesus, que sentiu o toque da mulher aflita no seu manto; que chamou as crianças e, tantas, tantas outras situações.

O Papa Leão XIV pede-nos que não nos esqueçamos de voltar a ser humanos. Estamos a viver uma fase da história muito rápida, com imensas transformações: desde as guerras às doenças, à pressão de sermos perfeitos, de termos filhos bons alunos, bonitos, educados. A pressão que sentimos diariamente para correr para o trabalho, para dar apoio aos nossos familiares e amigos, para ajudar na comunidade…

“Mas, se nos limitarmos às contingências, corremos o risco de deixar que uma série de emergências decida, em nosso lugar, a direção do caminho” (da introdução da encíclica Magnifica Humanitas).

Então, hoje, que aqui estamos com mais calma, procurando a companhia de Jesus, aproveitemos para agradecer este desejo que Deus lança no nosso coração de estarmos, agora e aqui, juntinho a Ele — o tempo que nos é possível e onde nos é possível —, numa esperança de melhor vermos o caminho que nos leva à salvação e que nos leve a ser caminho de salvação para os outros.

Jesus teve esta atenção com todos aqueles com quem se foi cruzando. E comigo? Quantas e quantas vezes Jesus sentiu o meu toque discreto de pedido de ajuda, ou, outras vezes, os meus gritos de socorro que incomodam tudo e todos, quando ando de mau feitio, quando ligo o “acelerador”. E, invariavelmente, Jesus arranja uma forma de me acalmar, de me dar a sua paz e de me ajudar a descansar.

São Paulo diz: Jesus esvaziou-se de si mesmo, esvaziou-se da sua condição divina para se tornar semelhante aos homens e se identificar como homem. Jesus não construiu uma enorme torre de Babel para se fazer notar ou para se mostrar. Pelo contrário, levou os que estavam consigo não a serem perfeitos, mas a saber rezar, a entregar as suas vidas e a cuidar uns dos outros; ensinou-os a cair, a pedir perdão e a recomeçar.

Também eu só quando me esvazio — só quando não estou cheia de mim mesma, das minhas preocupações, dos meus cansaços, do meu ego — consigo verdadeiramente ver os outros com quem caminho e ter esta atenção e cuidado, de forma a ser uma companhia alegre e leve no caminho, de forma a ser humana.

Mas também é um facto que Jesus se isolava para rezar sempre que sentia essa necessidade. Efetivamente, sozinhos não creio que seja possível ter esta humanidade e atenção aos outros. Só quando consigo entregar genuinamente a Jesus o que vivo, só quando procuro concretamente a sua ajuda para descobrir onde estou e para onde vou — na realidade, só quando me esvazio de mim mesma e me entrego completamente — é possível ser verdadeiramente humana.

Ainda há bem pouco tempo, no domingo, a leitura do Evangelho terminava assim: “Recebeste de graça, dai de graça.” Não é: dá das tuas forças e da tua boa vontade. Só me é pedido que dê aquilo que efetivamente recebo. E recebo tanto quando me predisponho a receber.

Peçamos ao Senhor esta capacidade de nos entregarmos e de receber o tanto que nos dá, para assim podermos ser humanos e atentos aos outros. Como diz São Paulo: “Pois é Deus quem opera em nós o querer e o agir.”

Só quando me entrego verdadeiramente consigo viver nesta difícil geração. Como diz a leitura — e é verdade que todas as gerações têm os seus desafios —, esta em que vivemos não é exceção: vivemos tempos bastante conturbados. Só deixando que Deus opere em mim é que consigo viver sem murmurar e sem discutir.

Os murmúrios interiores da minha alma são verdadeiros barómetros da minha relação com Jesus. Quando começo a rabujar e a murmurar a toda a hora, é tempo de parar para uma oração mais tranquila e com mais tempo. Para, assim, poder alegrar-me com este Jesus que se torna diariamente próximo, que sente as minhas dificuldades e alegrias, que me exorta a ser melhor e, acima de tudo, a ser feliz, alegre e a fazer os outros felizes e alegres.