Pistas de Oração:

Surgiu-nos este tema do “Permanecer humanos” para o retiro online que hoje começamos, em virtude da Encíclica que o Papa Leão XIV nos ofereceu, a “Magnifica Humanitas”. É de facto um presente magnífico para nós cristãos e não só, pois nesta era de tecnologias tão avançadas e que se desenvolvem a velocidades incríveis, faz sentido trazer ao de cima o debate de como nos poderemos manter profundamente humanos. Corremos o risco de pensar que estamos a viver um imenso progresso em muitos setores, mas podemos regredir na maneira como nos desumanizamos. Deste modo, as perguntas que neste 1º dia de retiro gostaríamos de tratar, têm a ver com o que é o ser humano e quem é o ser humano, à luz da fé? Sem entrar na questão mais técnica da antropologia como ciência social, mas sim no que tem em comum com a antropologia teológica, poderia dizer-se (na visão de uma antropóloga cristã) que o ser humano não existe só; a cultura só se transmite se houver comunidade e “Deus criou-os homem e mulher”, ou seja, existimos em comunidade, não fazendo sentido o amor, se não existir um “tu” a quem amar. Outra coisa que ambas as perspetivas têm em comum é que o ser humano está em permanente mudança e construção. As culturas que não mudam, acabam por morrer e o homem nas mãos de Deus é alguém que continuamente se deixa transformar para atingir a semelhança com Deus, porque a imagem já a tem desde que foi criado.

Numa perspetiva especificamente cristã, o que poderíamos responder sobre ‘quem é o homem?’

Acreditamos que “Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus”. Por isso o ser humano tem uma dignidade impressionante! Como diz o Salmo 8, que é o homem para te lembrares dele, o filho do homem para com ele te preocupares? Quase fizeste dele um ser divino; de glória e de honra o coroaste.” Nós existimos tal como somos pela grande bondade de Deus que cria cada ser humano semelhante a Si. Essa glória tem a ver com a inteligência, a vontade, a afetividade, a capacidade de amar à semelhança de Deus, que tão bem se vê em Jesus. A Declaração Universal de Direitos Humanos adotada em 1948 pela ONU, que reconhece a dignidade e igualdade de todos os seres humanos, tem em Jesus Cristo, quase 20 séculos antes, a sua génese. Isto em mim vem confirmar a minha fé, de que Jesus é mesmo O Caminho, a Verdade e a Vida. Esta imagem de Deus tem também a ver com o facto de Deus serem três Pessoas que se relacionam entre si e que vivem numa comunhão profunda, por isso somos seres criados para a relação.

- O que significa, então, para nós cristãos, permanecer profundamente humanos? Quais são os riscos que corremos de desumanização?

- O que significa viver em Comunidade, à maneira cristã?

Sabendo à partida que o ser humano tem uma dignidade inviolável, vemos muitas pessoas a viver de maneira indigna, a serem escravizadas, a viverem abaixo do limiar da pobreza, a serem descriminadas, a serem descartadas antes de nascerem ou a partir de uma certa idade ou por doenças incapacitantes, por não serem mais produtivas e tantas outras situações injustas que na prática mostram que as pessoas não são tratadas como iguais nem é respeitada a sua dignidade.

Na sua Encíclica o Papa Leão XIV resume o risco de desumanização em 2 pontos: construir o futuro excluindo Deus e reduzir o outro a um meio. Seria bom que não acusássemos a Sociedade em geral, pois isso simplifica e desresponsabiliza, mas que cada um perguntasse a si mesmo, em diálogo com Jesus:

-  Como vivo eu a minha relação contigo, Senhor e como vivo face ao outro?

Quantas “construções” me ponho a fazer sem antes rezar, sem pedir a sabedoria do Espírito Santo! Tantos momentos em que sou auto-suficiente e não peço a ajuda do Alto ou a pessoas à minha volta! Tempo perdido, diálogos sem espírito, oportunidades que passam e fica um vazio…

- Quanto tempo te dou, Senhor, que me criaste e me sustentas?

- Quem é o outro para mim, como me relaciono com ele? Utilizo-o, é um meio para chegar a um fim que me favorece? Ou é o centro, é o fim em si mesmo, alguém por quem me preocupo genuinamente, gratuitamente e a quem me entrego quando me necessita? Ponhamos aqui rostos concretos, sobretudo daquelas pessoas mais frágeis que estão na nossa vida.

O Papa Leão, ainda na sua Encíclica, refere 3 maneiras de viver que favorecem o verdadeiro progresso:

“um coração aberto ao outro;

uma inteligência disponível para ouvir;

uma vontade que procura mais o que une do que o que separa”.

Fala do coração, sede da afectividade, da inteligência e da vontade, aquilo que nos move como seres humanos e nos diferencia dos outros seres, como imagem de Deus que somos. Tanto podem ser utilizados para o mal, como para o bem, para o serviço do outro, tal como nos é sugerido, para a escuta, para o diálogo, para a comunhão, para pôr em prática o verdadeiro amor.

A Encíclica foca ainda 2 pontos que se ligam a estes e aos quais sou sensível e por isso os sinto como chamamento:

1. Aceitar os limites e a fragilidade humana sem os considerar um erro a corrigir (nº 12)

A ‘perfeição’ é quase uma obsessão dos nossos tempos, sobretudo num determinado estrato social. Tantas vezes, por detrás, há uma vivência egocêntrica, de querer ser o melhor para dar nas vistas, para alcançar poder, pelas expectativas que crio nos outros a quem não quero decepcionar, ou por outros motivos, que podem causar desunião e conflitos. Acontece que essa obsessão também dá lugar a grandes frustrações, porque não se conseguem assumir os próprios erros que acabam por gerar tensões internas e externas. Por outro lado, descartam-se os considerados “imperfeitos”, aqueles que já não apresentam utilidade visível…vive-se um “farisaísmo” que marginaliza tanta gente! Ainda não percebemos que Deus não se decepciona connosco, que qualquer fragilidade é amada por ele e mesmo o nosso pecado é aproveitado para nos fazer crescer, se o reconhecemos e nos pomos nas Suas mãos com confiança, pois tudo concorre para o nosso bem, segundo S. Paulo.

2. Ser construtores de comunhão (nº 16)

Por vezes sai-nos mais ver o negativo no outro, julgar, criticar, dizer mal. Viver em Comunidade à maneira cristã implica aceitar o outro tal como é sem querer fazê-lo à minha semelhança, implica um amor que repara no outro, que o escuta, que se responsabiliza por ele, que cuida dele quando precisa. As relações são o mais importante que temos como humanos, mas dão muito trabalho. Ser Comunidade não é dar pancadinhas nas costas. Estar atento para perceber quando alguém não está bem e actuar desde o que precisa é aquilo que me humaniza e humaniza o outro. E isso exige tempo, oração, atenção, um coração misericordioso e disponível à semelhança do coração de Cristo.

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